terça-feira, 1 de setembro de 2009

*Divertimentos


Dia 10 - Os Jogos a Cavalo

- Que belo dia. Perfeito, não acham? - comentou a mãe adoptiva.

Não, não acho. Está calor e os maus cheiros intensificam-se. É uma tormenta.
Claro que, depois da cena de ontem, não deveria empregar a palavra tormenta para uma questão tão pouco importante, tão pouco dolorosa.

Hoje há festa na cidade.
Vão ser celebrados os Jogos a Cavalo.
Cerimónia realizada todos os anos, à qual eu nunca assisti.
A família adoptiva persistiu.

Insistiu e lá me arrastaram atrás deles.

É uma ocasião de grande importância para a comunidade.
Todos vão bem vestidos e arranjados.

Apesar de se rebolarem na lama para tomar banho e lavar a roupa.


Uma grande arena que não tinha fim, erguia-se até ao céu.
Entrámos.

- E agora - perguntei quando chagámos aos nossos lugares?
- Agora esperamos.

Assim fizemos.

Os Cavaleiros montados nos seus cavalos eram ao todo vinte e um.
Dois homens foram trazidos para o centro da grande praça e assim abandonados à sua sorte.

São iguais a nós.
E, no entanto, soube quem eles eram mesmo antes das exclamações de nojo do público.

Arrepiei-me ao pensar "O que será que lhes vão fazer desta vez?"




Passaram-se duas insuportáveis horas.
Queria fugir dali, queria estar noutro lado qualquer.

Por favor.



O Jogo a Cavalo consistia na perseguição do Cavaleiro ao Excluído. Quando o alcançava, cravava-lhe uma uma farpa, acompanhada com exclamações de extâse da plateia.
Debrucei-me sobre o meu próprio corpo sem conseguir tirar os olhos dos Excluídos.



Às vezes, fazem coisas estranhas.
Como círculos e triângulos no chão.
Como se ignorassem que a morte os vinha buscar e antes dela receberiam o maior sofrimento que nunca imaginaram ser possível sentir.
Contavam pelos dedos e escreviam ao lado.

Outros enfrentavam o perigo, gritando dizeres abafados pelos clamores dos expectadores. (Espectadores, Espetadores, pouca diferença os separa.)
Mas a maior parte espelha simplesmente o sofrimento. A dor. Por vezes, os gritos ultrapassam os da multidão.

Afinal, são seres humanos.
Como são tão cruéis estas pessoas, a ponto de rejubilarem com a dor e a tortura dos Excluídos?
Como se atrevem a categorizar pessoas apenas porque não as compreendem?

Esta gente, estas Meninas, estas mentes fúteis, cruéis e mesquinhas é que mereciam ser espezinhadas até à morte.
Clamam por superioridade que não têm.

Caminham por lama?
Metes-me nojo, Lodaçal.
Deverieis caminhar sobre merda.

*Divertimentos

Dia 9 - Os Jogos de Vídeo

Foi a primeira vez que vi uma colectânea de Excluídos a regressar.
Discretamente, segui-os.

Os oficiais levaram-nos até o novo centro de comércio.

Existe uma loja, mesmo no rés do chão, onde as crianças se podem divertir com jogos de vídeo. Paga-se pouco.

Foi para as traseiras dessa mesma loja que encaminharam os Excluídos. Presa à curiosidade da novidade tecnológica, tornei a minha atenção aos jogos dos miúdos.

Típico jogo de existir no Lodaçal: desmembramentos, tiros, mortes, tortura.
Simples cliques que desfazem o ser fingido no ecrã.


De súbito, o ecrã muda.
Fica preto durante uns instantes.
Depois, uma sala.
Ao canto, uma porta.
No centro, um Excluído.


O pirralho agarra-se com toda a força ao comando e prime freneticamente todas as teclas.
E eu quero desviar os olhos, mas não consigo.
A dor de olhar nunca será comparável à dor que ele sentiu.
Por isso, fiquei, recebendo a minha merecida porção de dor.

Perante os meus olhos, a pele do Excluído era arrancada por uma bola de lâminas. Ele próprio era puxado.

E o puto ria-se
ria-se
ria-se
ria-se.


E quem passava na rua, aprisionava-se àquela caixinha.
Então, a multidão imitava a máquina de crueldade que era a criatura de 10 anos e
ria-se
ria-se
ria-se.

Embriagada com o choque e a angústia, com a dor a rebentar-me do peito e o vómito a rebentar-me do estômago, fugi dali o mais depressa que consegui.

*Divertimentos

Dia 8 - Os Excluídos

Demorei 17 anos da minha vida até descobrir a sua existência.
Olhamos para eles e eles parecem iguais a nós.
São iguais a nós.
O cabelo é da mesma cor, os olhos e a pele também.
Caminham sobre lama como toda a gente.
Vestem-se do mesmo modo e têm os mesmos empregos.
Quando os vi, pela primeira vez, estavam a ser levados. Foi algo que não pude compreender. O modo como as forças oficiais tratam as pessoas não é segredo, mas nunca antes vira um grupo reunido a ser transportado.

Quando tento fazer perguntas, todos me viram as costas.
Percebi que não devemos falar deles.
Pelo menos por agora.

Com mais cuidado observei tudo à minha volta.

Passaram-se dias


até compreender.



Passaram-se semanas.









Não tenho a certeza do momento preciso em que consegui juntar todas as peças.
A minha conclusão final resume-se nos propósitos seguintes:
Há algo que separa uma parte da população da outra.
Esse algo são palavras.
Ideias.

Os loucos, os génios e os revolucionários.

Os inconformistas e os inovadores.

Seleccionados, cuidadosamente, fazem-nos marchar até ao centro da cidade, de onde são levados.
Todas as semanas.
Basta uma denuncia.

Demorei mais duas semanas até descobrir para onde os levavam.
Para uma antiga prisão.

Demorei meio ano a descobrir o que fazem com eles.



Conservo-me calada.
Se os meus pensamentos viessem à tona, chamar-me-iam louca.

Uma escolha sábia.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

*Textos Complementares

Tendências

Escrito nos dois dias de 25 e 26 de Maio de 2009,

enquanto me têm durado as Tendências Homicidas.

 

por Adriana Gaspar

 

 

Acto I

(o das sensações fortes)

 

 

Cena I

(a maior)

 

Vês?

Não quero saber da justiça dos outros. Deram-me a vida, deram-me o mundo, agora bichem-se nas consequências.

Não, não me importo de matar pessoas, findar com os figurantes desta história.

Matar todos que tornam o mundo mais desagradável. Este irritante povinho é o mesmo de sempre. Que morra.

Nem a ditadura bastou para os apaziguar, porque comeu os errados.

 

Tomara que o mundo fosse corrido a uma ditadura decente, que dizimasse todos aqueles que fossem podres de espírito, em vez de encavernar as pessoas erradas em tribunal.

Tomara que uma faca de justiça bastasse, que a educação mudasse e que esses cabrões desaparecessem de vez! São eles que povoam este mundo de disparates! Não estão só enterrados em lama, são eles que a produzem massivamente!

A pocilga é culpa deles! E é nela que querem que viva.

Tomara que não saíssem às ruas proclamando os prazeres naturais e que se apercebessem do serem tão grotescos e se conseguissem mudar a todos ou suicidarem-se para que eu não tivesse de perder toda a minha vida à procura de justiça!

Que se lixe! Que morras tu, Homem, toda a espécie, para que se dê fim a esta dor de cabeça.

Que se encerrem todas as instituições, que se destruam todas as invenções, já que não há milagre algum que faça esta gente desaparecer!

Que me deixem ser ao mundo, eu e a minha faca, chacinar todos esses bonecos de plástico eternos. Deixai-me rasgá-los, deixai-me satisfazer esta vontade, porque eu não quero saber da justiça do estado!

Eu sou eu e ninguém mais me importa!

É a mim que devo satisfazer.

É comigo que me preocupo, por isso faço tudo à minha maneira.

Encravem esta sociedade naqueles que precisam de regras e de orientações, porque eu não preciso!

Fugir desta ditadura medíocre e trocá-la por algo de verdadeiro e essencial e vamos a ver quem resulta melhor.

Querem apostas?

Vês? Quem achas que me tornou assim? Foi o mundo que me pariu, que me cuspiu para dentro dele e me sujeitou àquilo que me fez como sou. Quem me criou foi o mundo! O mundo criou a sua autodestruição. E dar-ma porque posso!

Tomara que fizessem a tal bomba com 10 raios da Terra! Que engolisse a América, a Ásia, a África, a Europa. Todo o planeta.

E Portugal! Especialmente, Portugal! Que fosse em primeiro, para terminar a minha desgraça.

Que se rebente Mafra, Lisboa, Lousã.

Que se expludam os Algarves!

Que a Guarda saia do mapa!

Para que se deixe de tentar igualar Versailles com mediocridades!

Para que o mundo possa suspirar de alívio, e logo a seguir que se partam os Estados Unidos e no segundo depois a restante Terra e que não sobre nada, nem satélites, nem ondas, nem património para extraterrestres, merda, que nada pode sobrar deste decrépito ser que não pode jamais voltar a existir!

Que se eclipse tudo!

Ou então, deixem-me matar.

Sem vida decente não há vida alguma, somos mero animal instintivo, deixai-me matar alguém como quem mata uma pobre aranha.

As aranhas não nos obstroem a mente!

Só quem as mata!

Sim, Deus perdeu de vista o Adão de barro.

Vês? Vês como Almada tinha razão?

"E com pena fez outro de bosta de boi"

E os ratos roeram-lhe os miolos que nunca prestaram e das caganitas nasceu Eva, mãe de todas as Meninas!

Mãe Natura, nunca deveria ser crime limpar os produtores da merda onde vivemos.

Não achas, Mãe?

Deixa-me ir à caça da justiça, Mãe.

Vamos acabar com esses.

Vamos juntas, Mãe.

 

Cena II

 

O mundo julga-me porque pode,

por isso mato porque posso

ou talvez posso porque mato.

O julgamento não é mais que constatação de factos com castigo no fim.

Eu matei como pude para ter uma casa mais agradável e quem me julga não tem vontade de pensar.

Linhas guias há de um livro que lhes rege a vida.

A minhas delas não precisa, porque o mundo me ensinou assim e assim me deixou fazer.

Se nunca matei foi por não querer injustiças que metam meus pais em trabalhos.

Coitados, tiveram-me, nem sabiam que lá vinha.

Podiam-me ter matado à nascença, por acidente, pobrezinha, e faziam outro, como se faz nestes casos, mais uma produtora de lama.

Pobrezinhos, não sabiam o que faziam.

Nem o sofrimento que me davam.

Coitados, tristes, inocentes, pobrezinhos.

Não, não sou culpa deles.

Sou culpa dos produtores de lama.


Cena III

 

Diz-me que raio de justiça é a justiça de estado.

Um homicídio é crime?

Se pudéssemos julgar doenças, quais apanhariam maior pena?

Aquelas que te fazem adormecer, calmamente, e nunca mais acordar ou as crónicas, que dão mais sofrimento por mais tempo?

Talvez devêssemos perguntar às pessoas.

Matar um cagão de lama é como esfaquear uma crónica.

A destruição das almas já está feita, mas os que vierem a seguir já não sofrem.

(E que bem lhes faremos por privá-los disso?)

Que se danem, eles.

Quero, eu, viver sem estes cabrões comigo. O mundo cuspiu-me para dentro dele, a culpa é dele, ele criou-me.

E vou matá-los, estripá-los, desmembrá-los.

Matem-me a mim primeiro, se conseguirem. Tentem encarcerar-me, destruir-me, como fizeram aos meus amigos, vamos ver quem ganha.

Experimenta só.

Mas não tentes mexer no meu sentido de justiça.

 

Cena IV

 

Acabar com todos é poder dar o sorriso final. Malvados figurantes. Se a mesquinhes cegasse, o mundo seria governado pela mulher do médico. Mas a mesquinhes dá dinheiro.

E nós nascemos pré-fodidos.

E obrigam-nos a suportar isto.

Dividam-nos duma vez, bolas! Medíocres conformistas para longe!

Deixem-me em paz de uma vez por todas!

Não quero o mundo nem quero religiões nem quero sequer ter nascido.

Pobres dos que, como eu, se apercebem de que nos benzemos na lama e que o Lodaçal não é metáfora.

Vamos juntos! Vamos matá-los!

Por favor, dêem descanso à minha alma e satisfaçam a sede das minhas mãos. Deixem-me carregar as minhas espadas e abrir o peito dos infiéis e despojá-los do corpo onde não mereciam ter encarnado.

Dêem paz ao meu sossego, à minha cabeça. Deixem-me matá-los!, tou farta de figurantes! Já não o disse? Estou farta!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Acto II

(sossego)

 

Cena I

 

Fleur de lys

que se entranha. Gotas de rosa, espinhosa, pequenos morangos que ficam presos ao canto...

Extermínio de todos em cenário bonito, lama por sangue, lama por sangue, muito por pouco, lama por sangue, a mente acaba, lama por sangue.

Todos atarefados por calma.

E enquanto a vida se esvai pela ponta da minha faca fico um segundo mais calma, um segundo mais leve.

Com sangue se escreve, os infiéis findaram.

Com sangue se escreve, "25 de Maio de 2009, a lama foi trocada por sangue, os infiéis findaram".

Flor, faca de lis.

Finda os outros por mim, como ponta de caneta e a tinta é sangue.

Que bonito e plácido é hoje o mundo.

E os infiéis tornam-se úteis, tornam-se escritos maravilhosos.

Tomara que todos os dias fossem vermelhos e calmos como o de hoje.

Que todas as horas fossem desta paz d'alma, desprovidas de sensações excessivas.

Fleur de lys hoje está em paz.

 


 

 

Cena II


Boa, majestosa morte. Não há mais barulho.

Ninguém vai gritar por perdão nem por socorro nem por deus nem por futebolista nem por mamã.

Silêncio absoluto por fim. Calou, para sempre.

O sangue que escorre, sem força, e lama que já não tem quem a adore e evapora.

Boa, majestosa morte. Tão logo silenciosa, faca que rasga o ar como um lírio a acariciar a brisa, faca de lis que abre o peito como pétala de lis que tomba.

Todos mortos e agora já posso descansar.

Todos menos eu e os outros. Aqueles que têm fome de descanso, fartos da ânsia que os infiéis nutrem por nós. Sobrámos os anormais.

O corpo é bom, já livre do demónio.

Os inconvenientes foram.

Tinham-me dito para esperar uma ditadura. Estou farta de esperar. Boa, majestosa morte em primeiro.

Já não dói.

O mundo já é lindo, pela primeira vez alguém o pode apreciar.

Vês?

O mundo natural e o mundo artificial em perfeita sintonia, em perfeita beleza.

Todos mortos e eu em fim séria.

Em fim séria e com o poder na minha mão.

Em fim séria e livre.

Em fim com os meus.

Por fim nós.

Só.

Consegui, Mestre Almada.

 

Cena III

(Dedicado ao único tribunal que ainda me consegue castigar a alma)

 

Não fui má.

Fui agradável, fiz um bem ao mundo.

Vês?

Repara como é lindo o mundo, hoje.

Não fiz nada de mal. Fui rápida, de que serviam estas vidas que caminhavam à morte?

Não vieram cá fazer mais nada, estavam só à espera do fim. Dei-lhes o fim mais depressa, sem sofrimento.

Mãe, não, nunca fiz nada de mal, não fui má, não fui, mãe, não, não chores, mãe, mãe!, olha como é bonito o mundo, mãe, mãe?, mamã?, não gostaste, mãe?, mãe!, desculpa, mamã, mas não chores, porque eu fico triste, mãe, abre a tua mente, mãe, eles iam morrer de qualquer modo, eu não fiz nada de mal, mamã, olha, olha que agradável é o mundo, mãe, não percebes?, porque é que não percebes, mãe?, olha que felizes podemos ser, mãe, percebe, pára de chorar, mãe, preciso que tu percebas.

Mas, mãe, eu não sou um monstro.

Mãe, mamã, estás a sonhar, acorda!

Acorda, mãe, e vamos fingir que não se passou nada, que foi só um sonho, que esta vida não se passou e que esta gente nunca existiu, acorda!

Está tudo bem, mãe? Acho que tiveste um pesadelo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tendências

 

por Adriana Gaspar

quinta-feira, 7 de maio de 2009

*A Política

Próxima entrada:

"Dia 8 - A Ditadura"

do quarto capítulo "A Política".

Beijinhos aos fãs e aos seguidores.
Até lá.

*O Trabalho


Dia 7 - Os Efeitos Secundários
"Corpos mortos pelo chão
 Neste rasgo de podridão
 Arrastam-se pessoas pelo Lodaçal"

Os meus apontamentos de hoje.
A mamã morreu de cansaço e o papá ganhou uma infeção grave e amanhã já sou órfã.

"Atenção:
 Vapores tóxicos, merda e sangue na lama.
 Suster a respiração."

Que importa? dois em tantos milhares por dia. Os infectados e os deficientes que nascem deles e os novos humanos que aparecem, novas raças, verdadeiramente raças. Os que mandam afirmam que não é por causa do Dever que morrem.
O papá julga que apanhou a doença em casa. Hoje foi trabalhar, o máximo pela nação, nação até à morte.

*O Trabalho


Dia 6 - A Renumeração
Quem trabalha muito e sem queixas recebe uma renumeração: menos pontapés e empurrões dos polícias de trabalho, um lar privado e pode comer mais um pouco de lama.
No outro dia, quando ia para a Escola, para a avaliação, gritou um homem dos campos de trabalho que "estava farto daquela merda!" que "não queria trabalhar nunca mais naquele Lodaçal" e as pessoas à sua volta ficaram chocada. ele estava a falar da nação que tanto lhes dava. Que queria ele fazer sem aquele trabalho, tão essencial?
E em mim desperta esperança de tempos novos que se avizinham, porque não sou a única assim na nação, mas...
Chegou um polícia do trabalho que o atirou ao chão e berrou-lhe ao ouvido "OU TRABALHAS AQUI OU NÃO TRABALHAS EM MAIS LADO NENHUM!" e partiu-lhe um braço com um esticão e depois cortou-lhe a língua e os dois braços e comeu-lhes a carne até aos ossos.
A Renumeração são os sacrifícios que se Têm de fazer.

*O Trabalho


Dia 5 - O Dever
A mamã e o papá trabalham o dia todo.
"Pelo bem da nossa nação." me dizem quando os questiono.
"Para trazermos comida para casa".
No Verão, sob o Sol tórrido, a lama desidrata, fica tão rija como cimento. Então, ordes de trabalhadores vão trabalhar nela, cavar, cavar, cavar, o dia todo, todo o Verão, todo o Inverno.
"Tem de ser. Temos de trabalhar. A vida é mesmo assim." diz a mamã.
Que é feito de todos os trambolhos conhecimentos que aprendeu na escola? Foram pelo esgoto mal enterrou a primeira pá na lama.
O Dever é geral, o desles, o que será meu, o de todos é fazer prosseguir a nação, é cavar a lama até à morte e a morte é de tantos e ali ficam onde caem e os polícias do trabalho verificam se é morte se é inércia com um grande pontapé e os mortos ali ficam e alguns vivos não aguentam o cheiro e vomitam e o ciclo continua eternamente.
A lama do Lodaçal, outrora rica, fértil, o milagre das lamas, é composta de tudo isso: vómito, sangue, suor, fezes, pedaços de carne, corpos em decomposição, uma lixeira cada vez mais tóxica para aqueles que nela trabalham e mais mortes, mas os que mandam insistem que continue a exploração todo o dia, todo o ano, toda a vida e mais mortes, porque tem de ser, porque a vida é mesmo assim, e os escravos devem foder para se formarem mais escravinhos. E aqueles que não sejam bons a tudo na escola não têm outro remédio, é obrigatório. E ninguém vence o Ensino e todos trabalharão no Lodaçal onde nasceram, conforme manda o Dever.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

*A Escola


Dia 4 - O Ensino
Na Escola, temos de ser tudo ao mesmo tempo. Temos de saber tudo, fazer tudo, ser o que querem de nós.
Temos de fazer um montão de coisas distintas: de juntar as letras e formar aquela coisa das frases, de juntar os números e formar aquela coisa das contas, temos, temos, temos.
Temos de pensar na Escola quando estamos nela e quando estamos fora.
A Escola é tudo.
O Governo manda para fora os programas que constituem o Ensino. Coisas descabidas - temos de fazer tudo para sermos bem sucedidos.
Tudo o que se lembram.
Temos de ser bons a tudo, a juntar as letras e roubar-lhes o significado, a dissecar os poemas até à exaustão, a sugar a essência dos textos, a juntar os números, a somá-los, a dividi-los, a elevá-los, a fazer funções e estudar a continuidade, descobri-lhes as assimptotas, a juntar as letras para explicarmos o mundo quer a nível das forças, dos átomos, das células, do abstracto, do sistema nervoso central, dos bytes, dos Reis, das vilas, dos peixes, dos traços, de tudo o que se lembrem.
Temos de ser bons a chutar uma bola, a driblar, a passar, a escrever, a nadar, fazer viragens, cambalhotas, a atirar a bola de todas as maneiras possíveis.
E, como se não bastasse, temos de ser bons a falar, a dar-nos com os outros, senão somos "anormais" ou temos "falta de capacidades de comunicação".
Maldito governo.
Os professores têm de se submeter ao esquema. Lá vêm as confusões de avaliações mal tiradas, como se ensina?, como se aprende?, como se avalia uma pessoa?.
O Sistema prevê que eu adquira os conhecimentos e os aplique nos meios de avaliação. Que engula e vomite, como uma mãe a parir um filho.
Quem pode vencer o Ensino?
Agora, pseudo-preparam-me para entrar no mundo do valoroso trabalho, com a possibilidade de escolher, de optar, de decidir o meu futuro.
As op(r)ções são várias: contabilizar os buracos que se fazem, a terra que se move, posso planear a estrutura desta pocilga, posso cavar com os restantes, adiar-lhes a morte com drogas e ainda posso tentar mandar.
São essas as opções.
São todas para manter o Lodaçal a funcionar.
São todas para continuarmos a viver neste atraso de sociedade, eternamente retrógada.
O Ensino come-nos as entranhas da vida, tão mal composto que está.
Mas, olha, sou a menina dos olhos da mamã por tirar tão altos resultados.
Meto-me nojo a mim própria.

*A Escola


Dia 3 - As Meninas (aQuelas)
Passam a vida a dizer que a lama delas é melhor que a nossa.
E desdenham de todos.
E fazem grupinhos que nunca se separam, com segredinhos, risinhos, dedos a apontar, narizinhos torcidos.
Desdenham, também, umas das outras, mas só falam nas costas.
São as meninas de bem.
Odeiam-me, a mim e às outras meninas.
Suspiram pelos meninos, algumas.
Estão até à cinta em lama.
Cobrem-se nela freneticamente, rebolam-se, como porcos, fanáticas pela lama "mais boa que tu nunca vás pisar", como me dizem quando ela lhes escorre pela boca.
Não me interessa.
No fundo não passam de putas.

terça-feira, 17 de março de 2009

*A Escola

Dia 2 - A Turma
Os meus progenitores colocaram-me na escola, como lhes compete. O meu papel é ser aluna. A turma é composta por alguns meninos e meninas, alunos, como eu, e por um crescido, o professor.
Os alunos têm de permanecer sentados, partilhando as mesas aos pares.
O professor pode estar em pé ou sentado. Tem uma mesa grande só para ele.
Temos de ser bons meninos: bem comportados, que decoram bem e sabem fazer o que lhes é pedido. Parece que isso tem, realmente, algum valor e que depois temos uma recompensa. Notas.
Os progenitores gostam.
Mas os alunos mais velhos não.
Não percebo, mas a verdade é que não gostam. E não são teus amigos se não tirares más notas. Os outros alunos da minha turma fazem como eles.
E eu tenho de escolher entre os meus pais e os meus amigos.
Escolho ninguém, porque ambos os grupos têm lama até ao joelho.

sexta-feira, 13 de março de 2009

*Introdução


Dia 1 - O Nascimento
O meu nascimento, claro. Com direito até a padre para me abençoar.
A família reuniu-se toda para assistir a este maravilhoso acontecimento-por um dia, ninguém foi à escola, ninguém foi trabalhar, ninguém ficou pasmado a olhar o televisor.
A barriga da mãe começa a doer. As irmãs, que já passaram pelo mesmo, suspiram.
O padre inicia a metamorfose.
Contagem.
Decrescente.
A mãe sente o ácido. Sente o feto a subir garganta acima.
O padre, já macaco, começa a entrar em êxtase. Agita os braços, emite ruídos e dá pequenos saltos.
A mãe comeu demasiado antes da gravidez. Mais uma vez, não vai sair só o bebé. O mesmo acontecera no seu próprio nascimento e no do seu sobrinho mais velho e em tantos outros em todo o mundo.
Em todo o lodaçal.
A boca enche-se de placenta e suco gástrico. Esbraceja com as náuseas do que está para sair. A mãe inspira fundo, mas o enjoo torna-se demasiado.
Vomita. Eu nasço banhada de restos alimentares a meio da decomposição e caio na lama.
O macaco não consegue parar. Guincha e agita-se e os olhos viram-se, reviram-se e todo ele é uma reviravolta no mundo.
E todos sorriem perante este santo milagre.

*Textos complementares

Edgar olhou para o mundo a nu. Não usou quaiquer instrumentos oculares, nomeadamente os olhos que não faziam mais que uma interpretação literal da luz e dos seus encadeamentos. Edgar olhou para o mundo e viu-o tal e qual como ele o via.A pocilga estendia-se muito além dos limites visíveis da tenda de circo. Ver-se ao espelho também produzira aquela imagem. Arrepiou-se e reflectiu se seria aquele o mundo que queria dar à sua filha.
[...]E se ele se enganasse e a sua filha se tornasse em mais um monte de esterco naquela imensa pocilga?
Fjola apareceu a seu lado e juntos contemplaram o lodaçal.
_É este o mundo que lhe vamos deixar? _ antecipou-se.
Edgar conseguiu clarear as ideias.
_É um mau mundo, com más pessoas... Ou talvez só sejam podres por dentro. É um mau mundo, mas a nossa filha vai ter a satisfação de assistir à sua mudança e sentir o prazer de se saber responsável por isso.
Fjola sorriu.
_Vais dar à tua filha alguma verdade surreal para mudar o mundo?
_[...]Eu posso, pois, mudar a face do mundo, com as minhas surrealidades, mas se há outra coisa que sei é que as pessoas são corruptas. Se usasse as minhas capacidades para mudar o mundo, estaria a colocar uma coroa de flores no monte de estrume.
»O mundo tem de se mudar a partir de dentro, as pessoas têm de perceber que nada está bem, que a sua podridão é quase inadmissível. O estrume tem de se enterrar e de se transformar em matéria mineral que há-de alimentar as flores.
_O mundo tem de ser e não de fingir que é.
_Ora aí está.
O público avizinhava-se cada vez mais impaciente, mas era pura ilusão de óptica, pois encontravam-se a dormir.
_Mas, para que o mundo queira a mudança, tem de perceber que está podre. Tem de abrir os olhos. Tem de ter sementes que faça crescer, pois as flores não provêm do nada. E para que as sementes apareçam é preciso uma sorte extraordinária como uma AGM que os faça tropeçar na sua verdade, tal como fez comigo. Isto porque os olhos dos adultos estão fechados e eles se encarregam de fechar os das suas crianças.
»E essa será a grande oferta que vou dar à nossa filha: um bom par de olhos bem abertos e o dom da fala. Ela vai semear as flores. As pessoas terão de as alimentar. Acredito que ela o vai conseguir.
[...]

quinta-feira, 12 de março de 2009

*Textos complementares

Que somos nós a geração futura. Que a nós nos cabe decidir. É o que vocês dizem de nós. E, consequentemente, vai ser em nós que vão depositar os vossos problemas, os vossos erros. Em mim, no meu irmão, nos nossos amigos e em toda a nossa geração. Para que os responsáveis sejamos nós e não o pobre idoso que hás-de ser. Cá estão as consequências das tuas acções. E "Já não vou estar vivo quando isso acontecer.", mas vou estar eu. Não quero saber se um dia vais morrer, porque é por tua culpa que eu vou ter de aguentar o que aí vem. Não sei nem faço ideia do que vou herdar, mas quando isso chegar... é algo que vai acontecer, sabes? Ou não sabes? Mas sou eu que vou ficar mal, sou eu que vou ficar num mundo sem solução. E que mais hei-de fazer? Porque és tu, que não te preocupas comigo nem com o meu irmão, só contigo, tu é que tens de mudar o mundo primeiro. Porque não vês o que fazes aos teus semelhantes, podias ser tu!
Agora eu, primogénita, estou sozinha. Não, estou contigo, meu irmão, vamos fazer o quê com o legado dos nossos pais? De braço dado, pelo único caminho que nos deixaram, vamos nós para o abismo, caminhando, um passo à frente. Olha para isto! Daqui do alto do abismo, olha para o mundo escuro que nos deixaram... Diz-me, agora, o que fazemos? De braço dado, para o fim do mundo, eu contigo, só nós dois... E a neve, lá em baixo, é a única visão bela do fundo do abismo. Senta-te aqui, ao meu lado, a contemplar o fim do mundo.

*Textos complementares

Considera, agora, o mundo em que vivemos. Vês a badalhoquice que nos deixaram nossos pais, a pocilga em que vivemos. No entanto, não vamos sair dela até estar linda, pura, limpa e asseada. A organização é o extremo, e eu gosto de ti, meu amor, eu gosto. Que amor tiveram os nossos pais por nós? Agora, contigo, meu irmão, comecemos a primeira lição. O teu corpo é extremamente elástico, mas precisa de ser, primeiro, muito moldado. Tu só estás um pouco perro. Primeiro, precisamos de calor. Aquece o teu corpo a correr e a saltar pela pocilga que agora é nossa. Vamos, durante 5 minutos, vamos, conseguimos. Agora vamos esticar as pernas. Faz como eu, devagar, põe os pés para longe dos teus braços e relaxa. Vês, já estás a conseguir! Problema resolvido, meu irmão! Agora, vamos tratar da pocilga.

*Textos complementares

Um lodaçal imenso de vergonha e desgraça. Foi nestes termos que avaliei a pocilga que meus pais me deixaram. É lá que pessoas morrem e caem aos pedaços, comem-se, vivos ou mortos, ganham bolor e pus. Trabalha, como escravos a escavar covas no chão que deitam muito fumo, vapores tóxicos que abrem buracos no tecto. O Sol e o frio entram por lá e matam pessoas e animais. Existem guerrilhas e doenças e o lodaçal cresce de podridão, pois cada um caga onde come. O mais decadente é que todos acham que está tudo bem, que temos de sofrer, que é a vida.