quinta-feira, 7 de maio de 2009

*A Política

Próxima entrada:

"Dia 8 - A Ditadura"

do quarto capítulo "A Política".

Beijinhos aos fãs e aos seguidores.
Até lá.

*O Trabalho


Dia 7 - Os Efeitos Secundários
"Corpos mortos pelo chão
 Neste rasgo de podridão
 Arrastam-se pessoas pelo Lodaçal"

Os meus apontamentos de hoje.
A mamã morreu de cansaço e o papá ganhou uma infeção grave e amanhã já sou órfã.

"Atenção:
 Vapores tóxicos, merda e sangue na lama.
 Suster a respiração."

Que importa? dois em tantos milhares por dia. Os infectados e os deficientes que nascem deles e os novos humanos que aparecem, novas raças, verdadeiramente raças. Os que mandam afirmam que não é por causa do Dever que morrem.
O papá julga que apanhou a doença em casa. Hoje foi trabalhar, o máximo pela nação, nação até à morte.

*O Trabalho


Dia 6 - A Renumeração
Quem trabalha muito e sem queixas recebe uma renumeração: menos pontapés e empurrões dos polícias de trabalho, um lar privado e pode comer mais um pouco de lama.
No outro dia, quando ia para a Escola, para a avaliação, gritou um homem dos campos de trabalho que "estava farto daquela merda!" que "não queria trabalhar nunca mais naquele Lodaçal" e as pessoas à sua volta ficaram chocada. ele estava a falar da nação que tanto lhes dava. Que queria ele fazer sem aquele trabalho, tão essencial?
E em mim desperta esperança de tempos novos que se avizinham, porque não sou a única assim na nação, mas...
Chegou um polícia do trabalho que o atirou ao chão e berrou-lhe ao ouvido "OU TRABALHAS AQUI OU NÃO TRABALHAS EM MAIS LADO NENHUM!" e partiu-lhe um braço com um esticão e depois cortou-lhe a língua e os dois braços e comeu-lhes a carne até aos ossos.
A Renumeração são os sacrifícios que se Têm de fazer.

*O Trabalho


Dia 5 - O Dever
A mamã e o papá trabalham o dia todo.
"Pelo bem da nossa nação." me dizem quando os questiono.
"Para trazermos comida para casa".
No Verão, sob o Sol tórrido, a lama desidrata, fica tão rija como cimento. Então, ordes de trabalhadores vão trabalhar nela, cavar, cavar, cavar, o dia todo, todo o Verão, todo o Inverno.
"Tem de ser. Temos de trabalhar. A vida é mesmo assim." diz a mamã.
Que é feito de todos os trambolhos conhecimentos que aprendeu na escola? Foram pelo esgoto mal enterrou a primeira pá na lama.
O Dever é geral, o desles, o que será meu, o de todos é fazer prosseguir a nação, é cavar a lama até à morte e a morte é de tantos e ali ficam onde caem e os polícias do trabalho verificam se é morte se é inércia com um grande pontapé e os mortos ali ficam e alguns vivos não aguentam o cheiro e vomitam e o ciclo continua eternamente.
A lama do Lodaçal, outrora rica, fértil, o milagre das lamas, é composta de tudo isso: vómito, sangue, suor, fezes, pedaços de carne, corpos em decomposição, uma lixeira cada vez mais tóxica para aqueles que nela trabalham e mais mortes, mas os que mandam insistem que continue a exploração todo o dia, todo o ano, toda a vida e mais mortes, porque tem de ser, porque a vida é mesmo assim, e os escravos devem foder para se formarem mais escravinhos. E aqueles que não sejam bons a tudo na escola não têm outro remédio, é obrigatório. E ninguém vence o Ensino e todos trabalharão no Lodaçal onde nasceram, conforme manda o Dever.

quarta-feira, 6 de maio de 2009

*A Escola


Dia 4 - O Ensino
Na Escola, temos de ser tudo ao mesmo tempo. Temos de saber tudo, fazer tudo, ser o que querem de nós.
Temos de fazer um montão de coisas distintas: de juntar as letras e formar aquela coisa das frases, de juntar os números e formar aquela coisa das contas, temos, temos, temos.
Temos de pensar na Escola quando estamos nela e quando estamos fora.
A Escola é tudo.
O Governo manda para fora os programas que constituem o Ensino. Coisas descabidas - temos de fazer tudo para sermos bem sucedidos.
Tudo o que se lembram.
Temos de ser bons a tudo, a juntar as letras e roubar-lhes o significado, a dissecar os poemas até à exaustão, a sugar a essência dos textos, a juntar os números, a somá-los, a dividi-los, a elevá-los, a fazer funções e estudar a continuidade, descobri-lhes as assimptotas, a juntar as letras para explicarmos o mundo quer a nível das forças, dos átomos, das células, do abstracto, do sistema nervoso central, dos bytes, dos Reis, das vilas, dos peixes, dos traços, de tudo o que se lembrem.
Temos de ser bons a chutar uma bola, a driblar, a passar, a escrever, a nadar, fazer viragens, cambalhotas, a atirar a bola de todas as maneiras possíveis.
E, como se não bastasse, temos de ser bons a falar, a dar-nos com os outros, senão somos "anormais" ou temos "falta de capacidades de comunicação".
Maldito governo.
Os professores têm de se submeter ao esquema. Lá vêm as confusões de avaliações mal tiradas, como se ensina?, como se aprende?, como se avalia uma pessoa?.
O Sistema prevê que eu adquira os conhecimentos e os aplique nos meios de avaliação. Que engula e vomite, como uma mãe a parir um filho.
Quem pode vencer o Ensino?
Agora, pseudo-preparam-me para entrar no mundo do valoroso trabalho, com a possibilidade de escolher, de optar, de decidir o meu futuro.
As op(r)ções são várias: contabilizar os buracos que se fazem, a terra que se move, posso planear a estrutura desta pocilga, posso cavar com os restantes, adiar-lhes a morte com drogas e ainda posso tentar mandar.
São essas as opções.
São todas para manter o Lodaçal a funcionar.
São todas para continuarmos a viver neste atraso de sociedade, eternamente retrógada.
O Ensino come-nos as entranhas da vida, tão mal composto que está.
Mas, olha, sou a menina dos olhos da mamã por tirar tão altos resultados.
Meto-me nojo a mim própria.

*A Escola


Dia 3 - As Meninas (aQuelas)
Passam a vida a dizer que a lama delas é melhor que a nossa.
E desdenham de todos.
E fazem grupinhos que nunca se separam, com segredinhos, risinhos, dedos a apontar, narizinhos torcidos.
Desdenham, também, umas das outras, mas só falam nas costas.
São as meninas de bem.
Odeiam-me, a mim e às outras meninas.
Suspiram pelos meninos, algumas.
Estão até à cinta em lama.
Cobrem-se nela freneticamente, rebolam-se, como porcos, fanáticas pela lama "mais boa que tu nunca vás pisar", como me dizem quando ela lhes escorre pela boca.
Não me interessa.
No fundo não passam de putas.