Dia 4 - O Ensino
Na Escola, temos de ser tudo ao mesmo tempo. Temos de saber tudo, fazer tudo, ser o que querem de nós.
Temos de fazer um montão de coisas distintas: de juntar as letras e formar aquela coisa das frases, de juntar os números e formar aquela coisa das contas, temos, temos, temos.
Temos de pensar na Escola quando estamos nela e quando estamos fora.
A Escola é tudo.
O Governo manda para fora os programas que constituem o Ensino. Coisas descabidas - temos de fazer tudo para sermos bem sucedidos.
Tudo o que se lembram.
Temos de ser bons a tudo, a juntar as letras e roubar-lhes o significado, a dissecar os poemas até à exaustão, a sugar a essência dos textos, a juntar os números, a somá-los, a dividi-los, a elevá-los, a fazer funções e estudar a continuidade, descobri-lhes as assimptotas, a juntar as letras para explicarmos o mundo quer a nível das forças, dos átomos, das células, do abstracto, do sistema nervoso central, dos bytes, dos Reis, das vilas, dos peixes, dos traços, de tudo o que se lembrem.
Temos de ser bons a chutar uma bola, a driblar, a passar, a escrever, a nadar, fazer viragens, cambalhotas, a atirar a bola de todas as maneiras possíveis.
E, como se não bastasse, temos de ser bons a falar, a dar-nos com os outros, senão somos "anormais" ou temos "falta de capacidades de comunicação".
Maldito governo.
Os professores têm de se submeter ao esquema. Lá vêm as confusões de avaliações mal tiradas, como se ensina?, como se aprende?, como se avalia uma pessoa?.
O Sistema prevê que eu adquira os conhecimentos e os aplique nos meios de avaliação. Que engula e vomite, como uma mãe a parir um filho.
Quem pode vencer o Ensino?
Agora, pseudo-preparam-me para entrar no mundo do valoroso trabalho, com a possibilidade de escolher, de optar, de decidir o meu futuro.
As op(r)ções são várias: contabilizar os buracos que se fazem, a terra que se move, posso planear a estrutura desta pocilga, posso cavar com os restantes, adiar-lhes a morte com drogas e ainda posso tentar mandar.
São essas as opções.
São todas para manter o Lodaçal a funcionar.
São todas para continuarmos a viver neste atraso de sociedade, eternamente retrógada.
O Ensino come-nos as entranhas da vida, tão mal composto que está.
Mas, olha, sou a menina dos olhos da mamã por tirar tão altos resultados.
Meto-me nojo a mim própria.