quinta-feira, 7 de maio de 2009

*O Trabalho


Dia 5 - O Dever
A mamã e o papá trabalham o dia todo.
"Pelo bem da nossa nação." me dizem quando os questiono.
"Para trazermos comida para casa".
No Verão, sob o Sol tórrido, a lama desidrata, fica tão rija como cimento. Então, ordes de trabalhadores vão trabalhar nela, cavar, cavar, cavar, o dia todo, todo o Verão, todo o Inverno.
"Tem de ser. Temos de trabalhar. A vida é mesmo assim." diz a mamã.
Que é feito de todos os trambolhos conhecimentos que aprendeu na escola? Foram pelo esgoto mal enterrou a primeira pá na lama.
O Dever é geral, o desles, o que será meu, o de todos é fazer prosseguir a nação, é cavar a lama até à morte e a morte é de tantos e ali ficam onde caem e os polícias do trabalho verificam se é morte se é inércia com um grande pontapé e os mortos ali ficam e alguns vivos não aguentam o cheiro e vomitam e o ciclo continua eternamente.
A lama do Lodaçal, outrora rica, fértil, o milagre das lamas, é composta de tudo isso: vómito, sangue, suor, fezes, pedaços de carne, corpos em decomposição, uma lixeira cada vez mais tóxica para aqueles que nela trabalham e mais mortes, mas os que mandam insistem que continue a exploração todo o dia, todo o ano, toda a vida e mais mortes, porque tem de ser, porque a vida é mesmo assim, e os escravos devem foder para se formarem mais escravinhos. E aqueles que não sejam bons a tudo na escola não têm outro remédio, é obrigatório. E ninguém vence o Ensino e todos trabalharão no Lodaçal onde nasceram, conforme manda o Dever.

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