terça-feira, 1 de setembro de 2009

*Divertimentos


Dia 10 - Os Jogos a Cavalo

- Que belo dia. Perfeito, não acham? - comentou a mãe adoptiva.

Não, não acho. Está calor e os maus cheiros intensificam-se. É uma tormenta.
Claro que, depois da cena de ontem, não deveria empregar a palavra tormenta para uma questão tão pouco importante, tão pouco dolorosa.

Hoje há festa na cidade.
Vão ser celebrados os Jogos a Cavalo.
Cerimónia realizada todos os anos, à qual eu nunca assisti.
A família adoptiva persistiu.

Insistiu e lá me arrastaram atrás deles.

É uma ocasião de grande importância para a comunidade.
Todos vão bem vestidos e arranjados.

Apesar de se rebolarem na lama para tomar banho e lavar a roupa.


Uma grande arena que não tinha fim, erguia-se até ao céu.
Entrámos.

- E agora - perguntei quando chagámos aos nossos lugares?
- Agora esperamos.

Assim fizemos.

Os Cavaleiros montados nos seus cavalos eram ao todo vinte e um.
Dois homens foram trazidos para o centro da grande praça e assim abandonados à sua sorte.

São iguais a nós.
E, no entanto, soube quem eles eram mesmo antes das exclamações de nojo do público.

Arrepiei-me ao pensar "O que será que lhes vão fazer desta vez?"




Passaram-se duas insuportáveis horas.
Queria fugir dali, queria estar noutro lado qualquer.

Por favor.



O Jogo a Cavalo consistia na perseguição do Cavaleiro ao Excluído. Quando o alcançava, cravava-lhe uma uma farpa, acompanhada com exclamações de extâse da plateia.
Debrucei-me sobre o meu próprio corpo sem conseguir tirar os olhos dos Excluídos.



Às vezes, fazem coisas estranhas.
Como círculos e triângulos no chão.
Como se ignorassem que a morte os vinha buscar e antes dela receberiam o maior sofrimento que nunca imaginaram ser possível sentir.
Contavam pelos dedos e escreviam ao lado.

Outros enfrentavam o perigo, gritando dizeres abafados pelos clamores dos expectadores. (Espectadores, Espetadores, pouca diferença os separa.)
Mas a maior parte espelha simplesmente o sofrimento. A dor. Por vezes, os gritos ultrapassam os da multidão.

Afinal, são seres humanos.
Como são tão cruéis estas pessoas, a ponto de rejubilarem com a dor e a tortura dos Excluídos?
Como se atrevem a categorizar pessoas apenas porque não as compreendem?

Esta gente, estas Meninas, estas mentes fúteis, cruéis e mesquinhas é que mereciam ser espezinhadas até à morte.
Clamam por superioridade que não têm.

Caminham por lama?
Metes-me nojo, Lodaçal.
Deverieis caminhar sobre merda.

*Divertimentos

Dia 9 - Os Jogos de Vídeo

Foi a primeira vez que vi uma colectânea de Excluídos a regressar.
Discretamente, segui-os.

Os oficiais levaram-nos até o novo centro de comércio.

Existe uma loja, mesmo no rés do chão, onde as crianças se podem divertir com jogos de vídeo. Paga-se pouco.

Foi para as traseiras dessa mesma loja que encaminharam os Excluídos. Presa à curiosidade da novidade tecnológica, tornei a minha atenção aos jogos dos miúdos.

Típico jogo de existir no Lodaçal: desmembramentos, tiros, mortes, tortura.
Simples cliques que desfazem o ser fingido no ecrã.


De súbito, o ecrã muda.
Fica preto durante uns instantes.
Depois, uma sala.
Ao canto, uma porta.
No centro, um Excluído.


O pirralho agarra-se com toda a força ao comando e prime freneticamente todas as teclas.
E eu quero desviar os olhos, mas não consigo.
A dor de olhar nunca será comparável à dor que ele sentiu.
Por isso, fiquei, recebendo a minha merecida porção de dor.

Perante os meus olhos, a pele do Excluído era arrancada por uma bola de lâminas. Ele próprio era puxado.

E o puto ria-se
ria-se
ria-se
ria-se.


E quem passava na rua, aprisionava-se àquela caixinha.
Então, a multidão imitava a máquina de crueldade que era a criatura de 10 anos e
ria-se
ria-se
ria-se.

Embriagada com o choque e a angústia, com a dor a rebentar-me do peito e o vómito a rebentar-me do estômago, fugi dali o mais depressa que consegui.

*Divertimentos

Dia 8 - Os Excluídos

Demorei 17 anos da minha vida até descobrir a sua existência.
Olhamos para eles e eles parecem iguais a nós.
São iguais a nós.
O cabelo é da mesma cor, os olhos e a pele também.
Caminham sobre lama como toda a gente.
Vestem-se do mesmo modo e têm os mesmos empregos.
Quando os vi, pela primeira vez, estavam a ser levados. Foi algo que não pude compreender. O modo como as forças oficiais tratam as pessoas não é segredo, mas nunca antes vira um grupo reunido a ser transportado.

Quando tento fazer perguntas, todos me viram as costas.
Percebi que não devemos falar deles.
Pelo menos por agora.

Com mais cuidado observei tudo à minha volta.

Passaram-se dias


até compreender.



Passaram-se semanas.









Não tenho a certeza do momento preciso em que consegui juntar todas as peças.
A minha conclusão final resume-se nos propósitos seguintes:
Há algo que separa uma parte da população da outra.
Esse algo são palavras.
Ideias.

Os loucos, os génios e os revolucionários.

Os inconformistas e os inovadores.

Seleccionados, cuidadosamente, fazem-nos marchar até ao centro da cidade, de onde são levados.
Todas as semanas.
Basta uma denuncia.

Demorei mais duas semanas até descobrir para onde os levavam.
Para uma antiga prisão.

Demorei meio ano a descobrir o que fazem com eles.



Conservo-me calada.
Se os meus pensamentos viessem à tona, chamar-me-iam louca.

Uma escolha sábia.