Foi a primeira vez que vi uma colectânea de Excluídos a regressar.
Discretamente, segui-os.
Os oficiais levaram-nos até o novo centro de comércio.
Existe uma loja, mesmo no rés do chão, onde as crianças se podem divertir com jogos de vídeo. Paga-se pouco.
Foi para as traseiras dessa mesma loja que encaminharam os Excluídos. Presa à curiosidade da novidade tecnológica, tornei a minha atenção aos jogos dos miúdos.
Típico jogo de existir no Lodaçal: desmembramentos, tiros, mortes, tortura.
Simples cliques que desfazem o ser fingido no ecrã.
De súbito, o ecrã muda.
Fica preto durante uns instantes.
Depois, uma sala.
Ao canto, uma porta.
No centro, um Excluído.
O pirralho agarra-se com toda a força ao comando e prime freneticamente todas as teclas.
E eu quero desviar os olhos, mas não consigo.
A dor de olhar nunca será comparável à dor que ele sentiu.
Por isso, fiquei, recebendo a minha merecida porção de dor.
Perante os meus olhos, a pele do Excluído era arrancada por uma bola de lâminas. Ele próprio era puxado.
E o puto ria-se
ria-se
ria-se
ria-se.
E quem passava na rua, aprisionava-se àquela caixinha.
Então, a multidão imitava a máquina de crueldade que era a criatura de 10 anos e
ria-se
ria-se
ria-se.
Embriagada com o choque e a angústia, com a dor a rebentar-me do peito e o vómito a rebentar-me do estômago, fugi dali o mais depressa que consegui.

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