Dia 8 - Os Excluídos
Demorei 17 anos da minha vida até descobrir a sua existência.
Olhamos para eles e eles parecem iguais a nós.
São iguais a nós.
O cabelo é da mesma cor, os olhos e a pele também.
Caminham sobre lama como toda a gente.
Vestem-se do mesmo modo e têm os mesmos empregos.
Quando os vi, pela primeira vez, estavam a ser levados. Foi algo que não pude compreender. O modo como as forças oficiais tratam as pessoas não é segredo, mas nunca antes vira um grupo reunido a ser transportado.
Quando tento fazer perguntas, todos me viram as costas.
Percebi que não devemos falar deles.
Pelo menos por agora.
Com mais cuidado observei tudo à minha volta.
Passaram-se dias
até compreender.
Passaram-se semanas.
Não tenho a certeza do momento preciso em que consegui juntar todas as peças.
A minha conclusão final resume-se nos propósitos seguintes:
Há algo que separa uma parte da população da outra.
Esse algo são palavras.
Ideias.
Os loucos, os génios e os revolucionários.
Os inconformistas e os inovadores.
Seleccionados, cuidadosamente, fazem-nos marchar até ao centro da cidade, de onde são levados.
Todas as semanas.
Basta uma denuncia.
Demorei mais duas semanas até descobrir para onde os levavam.
Para uma antiga prisão.
Demorei meio ano a descobrir o que fazem com eles.
Conservo-me calada.
Se os meus pensamentos viessem à tona, chamar-me-iam louca.
Uma escolha sábia.

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