terça-feira, 17 de março de 2009

*A Escola

Dia 2 - A Turma
Os meus progenitores colocaram-me na escola, como lhes compete. O meu papel é ser aluna. A turma é composta por alguns meninos e meninas, alunos, como eu, e por um crescido, o professor.
Os alunos têm de permanecer sentados, partilhando as mesas aos pares.
O professor pode estar em pé ou sentado. Tem uma mesa grande só para ele.
Temos de ser bons meninos: bem comportados, que decoram bem e sabem fazer o que lhes é pedido. Parece que isso tem, realmente, algum valor e que depois temos uma recompensa. Notas.
Os progenitores gostam.
Mas os alunos mais velhos não.
Não percebo, mas a verdade é que não gostam. E não são teus amigos se não tirares más notas. Os outros alunos da minha turma fazem como eles.
E eu tenho de escolher entre os meus pais e os meus amigos.
Escolho ninguém, porque ambos os grupos têm lama até ao joelho.

sexta-feira, 13 de março de 2009

*Introdução


Dia 1 - O Nascimento
O meu nascimento, claro. Com direito até a padre para me abençoar.
A família reuniu-se toda para assistir a este maravilhoso acontecimento-por um dia, ninguém foi à escola, ninguém foi trabalhar, ninguém ficou pasmado a olhar o televisor.
A barriga da mãe começa a doer. As irmãs, que já passaram pelo mesmo, suspiram.
O padre inicia a metamorfose.
Contagem.
Decrescente.
A mãe sente o ácido. Sente o feto a subir garganta acima.
O padre, já macaco, começa a entrar em êxtase. Agita os braços, emite ruídos e dá pequenos saltos.
A mãe comeu demasiado antes da gravidez. Mais uma vez, não vai sair só o bebé. O mesmo acontecera no seu próprio nascimento e no do seu sobrinho mais velho e em tantos outros em todo o mundo.
Em todo o lodaçal.
A boca enche-se de placenta e suco gástrico. Esbraceja com as náuseas do que está para sair. A mãe inspira fundo, mas o enjoo torna-se demasiado.
Vomita. Eu nasço banhada de restos alimentares a meio da decomposição e caio na lama.
O macaco não consegue parar. Guincha e agita-se e os olhos viram-se, reviram-se e todo ele é uma reviravolta no mundo.
E todos sorriem perante este santo milagre.

*Textos complementares

Edgar olhou para o mundo a nu. Não usou quaiquer instrumentos oculares, nomeadamente os olhos que não faziam mais que uma interpretação literal da luz e dos seus encadeamentos. Edgar olhou para o mundo e viu-o tal e qual como ele o via.A pocilga estendia-se muito além dos limites visíveis da tenda de circo. Ver-se ao espelho também produzira aquela imagem. Arrepiou-se e reflectiu se seria aquele o mundo que queria dar à sua filha.
[...]E se ele se enganasse e a sua filha se tornasse em mais um monte de esterco naquela imensa pocilga?
Fjola apareceu a seu lado e juntos contemplaram o lodaçal.
_É este o mundo que lhe vamos deixar? _ antecipou-se.
Edgar conseguiu clarear as ideias.
_É um mau mundo, com más pessoas... Ou talvez só sejam podres por dentro. É um mau mundo, mas a nossa filha vai ter a satisfação de assistir à sua mudança e sentir o prazer de se saber responsável por isso.
Fjola sorriu.
_Vais dar à tua filha alguma verdade surreal para mudar o mundo?
_[...]Eu posso, pois, mudar a face do mundo, com as minhas surrealidades, mas se há outra coisa que sei é que as pessoas são corruptas. Se usasse as minhas capacidades para mudar o mundo, estaria a colocar uma coroa de flores no monte de estrume.
»O mundo tem de se mudar a partir de dentro, as pessoas têm de perceber que nada está bem, que a sua podridão é quase inadmissível. O estrume tem de se enterrar e de se transformar em matéria mineral que há-de alimentar as flores.
_O mundo tem de ser e não de fingir que é.
_Ora aí está.
O público avizinhava-se cada vez mais impaciente, mas era pura ilusão de óptica, pois encontravam-se a dormir.
_Mas, para que o mundo queira a mudança, tem de perceber que está podre. Tem de abrir os olhos. Tem de ter sementes que faça crescer, pois as flores não provêm do nada. E para que as sementes apareçam é preciso uma sorte extraordinária como uma AGM que os faça tropeçar na sua verdade, tal como fez comigo. Isto porque os olhos dos adultos estão fechados e eles se encarregam de fechar os das suas crianças.
»E essa será a grande oferta que vou dar à nossa filha: um bom par de olhos bem abertos e o dom da fala. Ela vai semear as flores. As pessoas terão de as alimentar. Acredito que ela o vai conseguir.
[...]

quinta-feira, 12 de março de 2009

*Textos complementares

Que somos nós a geração futura. Que a nós nos cabe decidir. É o que vocês dizem de nós. E, consequentemente, vai ser em nós que vão depositar os vossos problemas, os vossos erros. Em mim, no meu irmão, nos nossos amigos e em toda a nossa geração. Para que os responsáveis sejamos nós e não o pobre idoso que hás-de ser. Cá estão as consequências das tuas acções. E "Já não vou estar vivo quando isso acontecer.", mas vou estar eu. Não quero saber se um dia vais morrer, porque é por tua culpa que eu vou ter de aguentar o que aí vem. Não sei nem faço ideia do que vou herdar, mas quando isso chegar... é algo que vai acontecer, sabes? Ou não sabes? Mas sou eu que vou ficar mal, sou eu que vou ficar num mundo sem solução. E que mais hei-de fazer? Porque és tu, que não te preocupas comigo nem com o meu irmão, só contigo, tu é que tens de mudar o mundo primeiro. Porque não vês o que fazes aos teus semelhantes, podias ser tu!
Agora eu, primogénita, estou sozinha. Não, estou contigo, meu irmão, vamos fazer o quê com o legado dos nossos pais? De braço dado, pelo único caminho que nos deixaram, vamos nós para o abismo, caminhando, um passo à frente. Olha para isto! Daqui do alto do abismo, olha para o mundo escuro que nos deixaram... Diz-me, agora, o que fazemos? De braço dado, para o fim do mundo, eu contigo, só nós dois... E a neve, lá em baixo, é a única visão bela do fundo do abismo. Senta-te aqui, ao meu lado, a contemplar o fim do mundo.

*Textos complementares

Considera, agora, o mundo em que vivemos. Vês a badalhoquice que nos deixaram nossos pais, a pocilga em que vivemos. No entanto, não vamos sair dela até estar linda, pura, limpa e asseada. A organização é o extremo, e eu gosto de ti, meu amor, eu gosto. Que amor tiveram os nossos pais por nós? Agora, contigo, meu irmão, comecemos a primeira lição. O teu corpo é extremamente elástico, mas precisa de ser, primeiro, muito moldado. Tu só estás um pouco perro. Primeiro, precisamos de calor. Aquece o teu corpo a correr e a saltar pela pocilga que agora é nossa. Vamos, durante 5 minutos, vamos, conseguimos. Agora vamos esticar as pernas. Faz como eu, devagar, põe os pés para longe dos teus braços e relaxa. Vês, já estás a conseguir! Problema resolvido, meu irmão! Agora, vamos tratar da pocilga.

*Textos complementares

Um lodaçal imenso de vergonha e desgraça. Foi nestes termos que avaliei a pocilga que meus pais me deixaram. É lá que pessoas morrem e caem aos pedaços, comem-se, vivos ou mortos, ganham bolor e pus. Trabalha, como escravos a escavar covas no chão que deitam muito fumo, vapores tóxicos que abrem buracos no tecto. O Sol e o frio entram por lá e matam pessoas e animais. Existem guerrilhas e doenças e o lodaçal cresce de podridão, pois cada um caga onde come. O mais decadente é que todos acham que está tudo bem, que temos de sofrer, que é a vida.