O meu nascimento, claro. Com direito até a padre para me abençoar.
A família reuniu-se toda para assistir a este maravilhoso acontecimento-por um dia, ninguém foi à escola, ninguém foi trabalhar, ninguém ficou pasmado a olhar o televisor.
A barriga da mãe começa a doer. As irmãs, que já passaram pelo mesmo, suspiram.
O padre inicia a metamorfose.
Contagem.
Decrescente.
A mãe sente o ácido. Sente o feto a subir garganta acima.
O padre, já macaco, começa a entrar em êxtase. Agita os braços, emite ruídos e dá pequenos saltos.
A mãe comeu demasiado antes da gravidez. Mais uma vez, não vai sair só o bebé. O mesmo acontecera no seu próprio nascimento e no do seu sobrinho mais velho e em tantos outros em todo o mundo.
Em todo o lodaçal.
A boca enche-se de placenta e suco gástrico. Esbraceja com as náuseas do que está para sair. A mãe inspira fundo, mas o enjoo torna-se demasiado.
Vomita. Eu nasço banhada de restos alimentares a meio da decomposição e caio na lama.
O macaco não consegue parar. Guincha e agita-se e os olhos viram-se, reviram-se e todo ele é uma reviravolta no mundo.
E todos sorriem perante este santo milagre.

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