sexta-feira, 13 de março de 2009

*Textos complementares

Edgar olhou para o mundo a nu. Não usou quaiquer instrumentos oculares, nomeadamente os olhos que não faziam mais que uma interpretação literal da luz e dos seus encadeamentos. Edgar olhou para o mundo e viu-o tal e qual como ele o via.A pocilga estendia-se muito além dos limites visíveis da tenda de circo. Ver-se ao espelho também produzira aquela imagem. Arrepiou-se e reflectiu se seria aquele o mundo que queria dar à sua filha.
[...]E se ele se enganasse e a sua filha se tornasse em mais um monte de esterco naquela imensa pocilga?
Fjola apareceu a seu lado e juntos contemplaram o lodaçal.
_É este o mundo que lhe vamos deixar? _ antecipou-se.
Edgar conseguiu clarear as ideias.
_É um mau mundo, com más pessoas... Ou talvez só sejam podres por dentro. É um mau mundo, mas a nossa filha vai ter a satisfação de assistir à sua mudança e sentir o prazer de se saber responsável por isso.
Fjola sorriu.
_Vais dar à tua filha alguma verdade surreal para mudar o mundo?
_[...]Eu posso, pois, mudar a face do mundo, com as minhas surrealidades, mas se há outra coisa que sei é que as pessoas são corruptas. Se usasse as minhas capacidades para mudar o mundo, estaria a colocar uma coroa de flores no monte de estrume.
»O mundo tem de se mudar a partir de dentro, as pessoas têm de perceber que nada está bem, que a sua podridão é quase inadmissível. O estrume tem de se enterrar e de se transformar em matéria mineral que há-de alimentar as flores.
_O mundo tem de ser e não de fingir que é.
_Ora aí está.
O público avizinhava-se cada vez mais impaciente, mas era pura ilusão de óptica, pois encontravam-se a dormir.
_Mas, para que o mundo queira a mudança, tem de perceber que está podre. Tem de abrir os olhos. Tem de ter sementes que faça crescer, pois as flores não provêm do nada. E para que as sementes apareçam é preciso uma sorte extraordinária como uma AGM que os faça tropeçar na sua verdade, tal como fez comigo. Isto porque os olhos dos adultos estão fechados e eles se encarregam de fechar os das suas crianças.
»E essa será a grande oferta que vou dar à nossa filha: um bom par de olhos bem abertos e o dom da fala. Ela vai semear as flores. As pessoas terão de as alimentar. Acredito que ela o vai conseguir.
[...]

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