- Que belo dia. Perfeito, não acham? - comentou a mãe adoptiva.
Não, não acho. Está calor e os maus cheiros intensificam-se. É uma tormenta.
Claro que, depois da cena de ontem, não deveria empregar a palavra tormenta para uma questão tão pouco importante, tão pouco dolorosa.
Hoje há festa na cidade.
Vão ser celebrados os Jogos a Cavalo.
Cerimónia realizada todos os anos, à qual eu nunca assisti.
A família adoptiva persistiu.
Insistiu e lá me arrastaram atrás deles.
É uma ocasião de grande importância para a comunidade.
Todos vão bem vestidos e arranjados.
Apesar de se rebolarem na lama para tomar banho e lavar a roupa.
Uma grande arena que não tinha fim, erguia-se até ao céu.
Entrámos.
- E agora - perguntei quando chagámos aos nossos lugares?
- Agora esperamos.
Assim fizemos.
Os Cavaleiros montados nos seus cavalos eram ao todo vinte e um.
Dois homens foram trazidos para o centro da grande praça e assim abandonados à sua sorte.
São iguais a nós.
E, no entanto, soube quem eles eram mesmo antes das exclamações de nojo do público.
Arrepiei-me ao pensar "O que será que lhes vão fazer desta vez?"
Passaram-se duas insuportáveis horas.
Queria fugir dali, queria estar noutro lado qualquer.
Por favor.
O Jogo a Cavalo consistia na perseguição do Cavaleiro ao Excluído. Quando o alcançava, cravava-lhe uma uma farpa, acompanhada com exclamações de extâse da plateia.
Debrucei-me sobre o meu próprio corpo sem conseguir tirar os olhos dos Excluídos.
Às vezes, fazem coisas estranhas.
Como círculos e triângulos no chão.
Como se ignorassem que a morte os vinha buscar e antes dela receberiam o maior sofrimento que nunca imaginaram ser possível sentir.
Contavam pelos dedos e escreviam ao lado.
Outros enfrentavam o perigo, gritando dizeres abafados pelos clamores dos expectadores. (Espectadores, Espetadores, pouca diferença os separa.)
Mas a maior parte espelha simplesmente o sofrimento. A dor. Por vezes, os gritos ultrapassam os da multidão.
Afinal, são seres humanos.
Como são tão cruéis estas pessoas, a ponto de rejubilarem com a dor e a tortura dos Excluídos?
Como se atrevem a categorizar pessoas apenas porque não as compreendem?
Esta gente, estas Meninas, estas mentes fúteis, cruéis e mesquinhas é que mereciam ser espezinhadas até à morte.
Clamam por superioridade que não têm.
Caminham por lama?
Metes-me nojo, Lodaçal.
Deverieis caminhar sobre merda.

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